Angela Ro Ro muito além de “escândalo”
Uma edição especialíssima dessa newsletter para homenagear Angela Ro Ro
Essa edição é muito especial: marca o retorno dessa news após quase 2 anos de inatividade e é escrita não por mim, Maria Caram, mas por Fernanda Domê, uma mulher com quem troco sobre música e outras coisitas desde que a conheci no primeiro evento do meu finado podcast Undergrations
No dia em que completamos um mês sem Angela Ro Ro, Fernanda Domê* nos traz seu olhar e relação sobre essa artista
Angela Ro Ro é uma das minhas compositoras preferidas. Na ocasião de seu falecimento, vi muitas publicações que tinham a pretensão de fazer reverências à sua carreira citando a música “Escândalo” como “A GRANDE MÚSICA DE SEU VASTO REPERTÓRIO”. Não por coincidência, essas publicações (as que vi) estavam assinadas por homens, o que me fez refletir: ora pois, as entranhas do machismo, uma praga que se manifesta até mesmo quando os caras acreditam que estão elogiando o trabalho de uma mulher.
“Escândalo” é uma música muito boa, tem letra de Caetano Veloso (inspirada na Ro Ro e feita para ela), mas não é, para mim, a melhor representante do repertório dessa brilhante intérprete e compositora. Por isso, proponho aqui um passeio, com ouvidos mais abertos para o trabalho da Angela Ro Ro.
Antes da playlist, farei um adendo: não vou incluir “Amor meu Grande Amor”, a mais popular canção da Ro Ro, porque essa todo mundo conhece (apesar de parte desse “todo mundo” achar que ela é do Frejat, quando na verdade é da Ro Ro com a Ana Terra. Uma música maravilhosa composta por duas compositorAs gigantes!)
Dito o dito: playlist comentada “Angela Ro Ro muito além de escândalo” (além dessa canção e além da injusta má fama). Vou destacar algumas músicas por álbuns, sem ordem cronológica para que os ouvidos se abram primeiro para lugares mais desconhecidos.
Playlist Spotify
Playlist Youtube
A vida é mesmo assim, 1984 - Desse disco, vou destacar 4 canções:
“Librear” (para quem é de LP, 2° faixa do lado B): uma música gostosa, vivona demais em cada timbre dos sopros que abrem a música, antes mesmo de se ouvir a voz da Ro Ro rasgando tons sobre “todo amor que fez”.
“É tanto fogo flor, me ardo na fogueira
quero mesmo é queimar de vez toda a dor,
quero o céu, meu amor,
vem, minha vida, me abraça,
sou seu fogo, fumaça, ar,
a balançar, a librear”
“Fogueira” (2° faixa do lado A): em uma pegada oposta à música que indiquei primeiro, mas sempre sobre amar, essa é uma música sofrida, de grande devoção ao amor mesmo quando ele é dor. A devoção e a dor são incitadas nos primeiros acordes, que me lembram músicas religiosas (de tradição católica). O canto da Ro Ro aqui não é rasgado, mas sim melancólico, quase cochichado, alongado em cada nota e quase lembra uma prece.
“Porque temer a minha fêmea
se a possuis como ninguém
há cada bem do mal do amor em mim”
“Gata, moleque, ninfa” (4° faixa do lado B): quis trazer essa música, porque adoro a construção da letra. Adoro como ela vai escalando os versos e consegue colocar um Papa na história para falar sobre o caráter da personagem que ela descreve com um certo ar de desprezo.
“Gata, moleque, ninfa, mina boa de chinfra,
que tem a mesma cor
de um luar minguante, Mercúrio flamejante
é frio o teu ardor
Vou ter compreensão, soltar você da mão
Onde nunca pousou o teu coração”
“Isso é para a dor” (5° faixa do lado B): Sobrenome DRAMA! Latina, demais. Ro Ro compõe de alma absolutamente aberta, sem esconder ou amenizar nada e nessa música, sobre o fim de um relacionamento, ela consegue expor ternura, amor, dor, rancor, agradecimento e deboche. Gênia!
“Pois é, eu vou te amar até o fim da linha
Da linha que separa a dor
Galinha, isso é para a dor”
Eu desatino, 1985 - Vou destacar 2 canções desse álbum, que para mim se distanciam de outras do mesmo trabalho e se alinham no mote que olha para questões sociais:
“Mônica” (4° faixa do lado B): uma franca denúncia sobre o machismo e o feminicídio.
“Morreu violentada por que quis!
Saía, falava, dançava
Podia estar quieta e ser feliz
Calada, acuada, castrada”
“Eu não” (2° faixa do lado B): um bluesão cheio de poesia para as causas ambientais.
“Não vejo o sol se cansar
Nem a lua recusar
Aparecer a ninguém
Nem as estações se entendiam
De rodar e elas guiam
A natureza tão bem
Não ouço o mar reclamar
Do barulho que as ondas
Fazem no seu balançar”
Simples Carinho, 1982 - Desse disco vou destacar uma canção, feita em parceria com Antônio Adolfo, o principal arranjador de muitos de seus trabalhos:
“Se você voltar” (2° faixa do lado B): essa é bem rasgada, apaixonada, com muito blues, bolero e valsa em deliciosas e encaixadíssimas oposições.
“Mas se você voltar e me ajudar a conhecer
Aquele fogo brando do amor que nós deixamos morrer
Se você voltar e me ajudar a conseguir
A luz que guiará nossos axés até se ir
Quem é forte e nega seu próprio amor
É tão fraco que não suporta a dor
É melhor se perder pra depois
Reviver todo um bem”
Só nos resta viver, 1980 - esse é um trabalho difícil de destacar poucas músicas. Segundo disco da carreira da Ro Ro, cheio de clássicos do repertório dela, com produção afinadíssima e arranjos divididos entre Antônio Adolfo (assina três arranjos) e Lincoln Olivetti (assina a maior parte dos arranjos), é uma pérola do início ao fim. Adendo: quem tiver a oportunidade de ler o encarte do LP, leia o release escrito pela própria RoRo.
Sem mais, escolhi destacar 3 canções desse disco, mas quero acrescentar uma quarta onde ela é “apenas intérprete” como bônus (já que o propósito da playlist é contar sobre a Ro Ro compositora):
“Renúncia” (1° faixa do lado A): (Essa eu vi a Ro Ro fazer no palco, para o meu deleite) No realese ela escreve, sobre o disco, que o trabalho conta “histórias de música e vida e como elas se interligam intensa e humanamente por uma simples chapa de acetato”, e, escolher essa música, de intensidade e beleza absurdas, é demasiadamente representativo do que foi Angela Ro Ro.
“A renúncia não vai ser
Paciência, desistência, com os males do viver
No dia que eu me encontrar com coragem
Para dar mais amor pra você
Movimento, ferimento, vão sangrar
E a loucura, tão amiga, viajar
No dia que eu me encontrar com bravura
Pra entender o que é amar
Tudo passa, tudo passa,
É o que eu vivo a escutar
Mas se passa, tudo bem, pois alguém há de ficar
No dia que eu me encontrar com ternura
E razão pra me amar”
“Devoção” (6° faixa do lado A): raro registro da Ro Ro instrumentista. Essa música, além de ter uma letra linda, foi gravada no disco apenas com ela cantando e tocando piano.
“Sempre é hora de brotar canções,
Confessar paixões exiladas...
Todo o tempo é tempo de amigos,
Construir amigos além da visão.
Todo o dia nova fantasia,
O real que cria sonho e ilusão,
Devoção de um poeta e louco
Que não abre concessão”
“Preciso tanto!!!” (1° faixa do lado B): Essa abre o lado B e a trinca da tesão (seguida com “Fica Comigo Essa noite” e “Blues do Arranco”), que se segue com a trinca da desilusão (“Bobagem”, “Meu Mal é a Birita” e “Tango da Bronquite”), que finaliza o disco. Como eu disse, quero que você escute o disco todo, mas te deixarei com essa faixa para aguçar os sentidos, arrepiar e ir atrás das demais.
Bônus: Vai Embora! (letra de Sérgio Bandeyra): Essa é super cênica - eu escuto e vejo a cena: abrem-se cortinas de um grande palco, Ro Ro como uma grande diva, única, em um palco enorme e iluminada por uma luz dramática avista a pessoa indesejada na plateia.
“Eu gostaria muito que você entendesse
Usasse toda a sua inteligência e percebesse
Que é com você que eu estou falando agora
As suas vibrações me incomodam
Sua presença me perturba”
Selvagem, 2017 - último álbum da Ro Ro, lançado pela Biscoito Fino. Confesso que tenho pouca intimidade com ele, ouvi pouco, mas adoro esse xote que vou colocar aqui na playlist e acho outras letras também boas (vale ouvir o disco com atenção!):
“Parte com o capeta” (última faixa do disco): Acho essa música super representativa da irreverência que a Ro Ro sempre teve.
“Tenho parte com o capeta
Tenho parte com o cão
Tenho parte com gato, com onça
Com ave, gigante e anão
Tenho asa como anjo
Tenho alma de criança
Não preciso nem de par
Pra dançar a minha dança”
Compasso, 2006 - E já que entrei na fase anos 2000 da Ro Ro, vamos com esse disco, que é o penúltimo de estúdio e o segundo da fase pós 80. Vou indicar aqui só a música que dá título ao disco, mas recomendo o disco todo, ele é gostoso, adoro também uma outra música com levada reggae (Dá Pé!) que tem nele:
“Compasso” (1° faixa do disco): essa tem parceria do Ricardo Mac Cord e todas as vezes que ouvi Ro Ro cantá-la, ela antes contava histórias de como sobreviveu a tudo que viveu entre 70/80 e chegou ao novo milênio viva e com saúde. Essa música fala sobre os processos de cura dela e é linda e forte.
“Estou deixando o ar me respirar
Bebendo água pra lubrificar
Mirando a mente em algo producente
Meu alvo é a paz
Vou carregar de tudo vida afora
Marcas de amor, de luto e espora
Deixo alegria e dor
Ao ir embora
Amo a vida a cada segundo
Pois para viver, eu transformei meu mundo
Abro feliz o peito
É meu direito”
Chegando agora à reta final dessa playlist, vou para os dois discos mais cultuados dessa artista incrível, que nos deu muitas composições primorosas e interpretações dilacerantes nesses 10 álbuns de estúdio.
Angela Ro Ro, 1979 - álbum de estreia, com todas as músicas compostas por ela (uma em parceria com a Ana Terra e outra com Sérgio Bandeira) e perfeito do início ao fim. Como alguém pode começar a carreira de maneira tão irretocável? Angela Ro Ro começou perfeita. Tem como não pedir para ouvir o disco inteiro? Tem como indicar poucas músicas? Que tarefa difícil! Mas, já dizendo que destaco todas, vou trazer a música desse disco que toda vez que escuto penso: “apenas Angela Ro Ro poderia ter escrito isso”:
“Mares da Espanha” (2° faixa do lado B): Nem uma vírgula omitida ou amenizada, assim é Ro Ro (nessa e em todas suas outras músicas). E dizer que é pior a emenda para a loucura (ela deve ter escutado muito que tinha que se emendar), só Ro Ro! Obs: depois preste bem atenção na letra de “Mãezinha”, que vem na sequência, não à toa.
“Loucura é loucura, não me compreenda
Loucura é loucura, pior é a emenda
Loucura é loucura, não me repreenda
Eu amei demais”
Escândalo, 1981 - finalizo com o disco que tem “Escândalo”, mote dessa playlist. Esse é o terceiro disco da carreira da Ro Ro, também irretocável, cheio de clássicos que contam que, mesmo nele, Ro Ro é muito além de “Escândalo”. Peço que escute o disco inteiro, mas vou destacar aqui, como resposta ao mote da feitura dessa playlist, 3 canções:
“Perdoai-os, pai” (1° faixa do lado A): Mais uma parceria com Sérgio Bandeira, usarei dois versos para pensar as “homenagens” que não deram o devido valor às composições de RoRo. Perdoai-os, pai?
“Perdoai-os Pai
Eles só sabem o que fazem
Eu quero uma cruz de pinho selvagem
Alguma bebida pra me dar coragem
Meu sangue ser água
Matar minha sede
Que todos recusem carinho pra mim
Mas nunca se esqueçam, eu nunca padeço
Mas nunca se esqueçam de mim”
“Came e Case” (2° faixa do lado A): Dos casos tórridos de amor e tesão sobre os quais Ro Ro compôs tão bem, essa é daquelas músicas que arrepiam todos os pelos do corpo.
“E quando eu respiro lhe tirando o ar
Você abre as narinas doidas e felinas
Pronto a sufocar
Coragem singela tipo cai não cai
Tipo came e case, louca samurai”
“Fraca e Abusada” (3° faixa do lado B): Um delicioso e debochado chorinho. Resposta à injusta fama de maldita (uma resposta direta às notícias dos “escândalos” que prejudicaram tanto a carreira da Ro Ro) e minha resposta a quem ainda tenta palco enfatizando outros aspectos da sua carreira que não sejam a sua imensa qualidade e colaboração para a música brasileira.
“Não acredito que você lucre com isso
Pois promoção fácil também dá sumiço”
Dos discos “Acertei no milênio”, de 2000 (8° álbum) e “Prova de amor”, de 1988 (7° álbum), eu não indicarei nada porque realmente não tenho nenhuma intimidade com eles. Não estão disponíveis nas plataformas de streaming e não os tenho em mídia física. Mas tenho certeza que ambos apresentam boas composições da Ro Ro e que valem ser bem explorados.
*Fernanda Domê pensa e trabalha com linguagens e é graduada em Moda pela USP e Fonoaudiologia pela UNESP.
O Grupo de Estudos em Lesbianidades, da Fafich (UFMG), já tinha lançado o podcast Entendidas, com a primeira temporada dedicada à história de Angela Ro Ro antes do falecimento da artista. O trabalho cuidadoso e primoroso está disponível no Spotify:
É possível acompanhar os encontros do grupo no Youtube
Se você chegou até aqui, agradeço demais a leitura. Essa newsletter segue funcionando no fluxo do desejo e do tempo disponível. Espero que nos encontremos em breve.
