Vamos falar sobre Generasian?
2 mulheres, 2 tempos e a coragem de bancar o que se quer fazer
A partir do texto da Fernanda Domê sobre Angela Ro Ro, passei a convidar outras mulheres para escrever nessa newsletter. O desejo é, além de trazer artistas mulheres, amplificar vozes de mulheres que pesquisam e dialogam com as obras dessas artistas.
Na edição de hoje, recebo Olga Costa1 fazendo uma interessante conexão entre a artista, cantora, compositora e modelo jamaicana Grace Jones e a cantora e compositora coreana LIM KIM.
O que existe de comum nas trajetórias de Grace Jones (cantora e compositora jamaicana) e LIM KIM (cantora e compositora coreana)? Alguns pontos discretos, mas não imperceptíveis. Ambas chegaram na indústria, dita de entretenimento, sabendo que o desafio era não se deixar rotular. Saíram de seus países de origem para a costa leste americana e de lá ganharam o mundo.
Who is the fucking Queen?
Eu sei quem sou. Sei porque estou aqui e o que devo fazer. Com a cara na capa KIM deixou seu recado, e nos remete à marcante capa de “NightClubbing” de 1981, de Grace Jones.


Who is the fucking Queen?
Enquanto uma decolava na “new wave” a outra dava de cara com a “no wave” em New Jersey já nos anos 2000 ou seria com a “deconstructed club2”?
Who is the fucking Queen?
Grace Jones, em 1981, apostou em desestabilizar diversos clichês racistas e sexistas com um visual andrógino, agregando à sua música moda e arte. Em algumas plataformas digitais a capa de “NightClubbing” foi trocada por uma outra capa insípida. Incômodo?
Quem vai salvar você? It’s not the fucking O Superman.
Em 2011, LK esculpiu o próprio espaço na música coreana, na moda e nos espaços culturais.
A Voice (2013) – sua estréia foi muito bem sucedida. No entanto, LIM KIM não estava confortável com o que presenciava ao seu redor, nem como mulher, nem como artista.
Então, com o contrato encerrado com sua agência, entrou em um hiato de três anos. Nesse período, a pedido e com apoio financeiro dos fãs, preparou uma nova fase.
Em Yellow – o recado é: não precisamos ser o que vocês querem! Temos vontade própria, desejos próprios e não precisamos que vocês escolham nada por nós!
Eu tenho a minha voz – “Who is the fucking Queen?”
Generasian é um EP recheado de experimentações. Na época do lançamento disse em uma entrevista para a revista Billboard que “estava calma e silenciosa, pois tinha feito tudo o que tinha em mente”.
É um cadeirão de influências muito bem dosadas. Receitas aprendidas e apreendidas de uma ancestralidade que não pode sucumbir com as artificiais inteligências.
Na sonoridade, usou como base a desconstruted club music agregando tanto sons do passado, como do presente para uma construção de uma trilha sonora futura para si e para tantas mulheres que temem arriscar a colocarem as suas vozes onde elas deveriam estar.
Grace Jones e LIM KIM seguem a fazer “o que der na telha”. É assim que tem que ser. Que assim seja!
Who is the fucking Queen?
Desculpem o transtorno, estamos em obras!
Se você me acompanha há algum tempo, deve ter percebido que o nome da newsletter mudou, um anúncio de outras reformas por aqui.
Além de convidar outras pessoas a ocuparem esse espaço, pretendo ampliar a conversa para além da música e, embora o foco ainda sejam artistas mulheres, me sentir livre para trazer influências importantes pra mim independente do gênero. Quero partir da música para falar do que toca e me instiga, mais ou menos como faço na vida.
Fico muito feliz com quem seguir me acompanhando e indicando após essas mudanças. A ideia neste ano é passar a escrever mais regularmente aqui também. Vamos torcer para que eu e o acaso estejamos alinhados.
próxima estação/next station
Para quem não sabe, lancei um romance ano passado ( e também alguns zines).
próxima estação/next station é uma história de amor em movimento, urbana e calcada nas possibilidades e incertezas de quem se encontra e partilha de desejos musicais.
Para saber mais ou adquirir seu exemplar autografado (R$45+frete), basta responder esse e-mail.
Olga Costa, jornalista que esteve a frente do Jardim Elétrico, longevo programa radiofônico de rock em João Pessoa, e que segue se interessando e pesquisando o rock, suas experimentalidades e a atuação feminina nesse segmento. Olga também é minha dupla na motosserra, um duo de música eletrônica de ruído.
New wave, no wave e desconstruted clubs são nomes que referem-se a diferentes cenas musicais.

